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You’re lost, little boy

Há alguns dias tive que ilustrar um texto sobre crianças superdotadas e fiquei com inveja de um garoto de 5 anos que acordou seus pais de madrugada para discutir o fim do Império Romano, e de um outro pirralho que aprendeu a ler sozinho aos 3 anos de idade.

Acho que também fui uma criança precoce. Aos três meses eu já tinha depressão e com cinco já havia tentado o suicídio duas vezes sufocando minha cabeça com as próprias fraldas. Minha avó contou que não chorei até o vigésimo dia de vida, mas, quando me dei conta de onde estava, fiquei aos prantos durante duas semanas seguidas.

A verdade é que, tirando essa história mentirosa, não aconteceu nada que pudesse ser considerado marcante em minha infância. Exceto o fato de ter ganho um concurso de desenho aos 4 ou 5 anos de idade e aprendido a andar de bicicleta sem rodinhas aos 3, devo ter sido uma criança bem introspectiva e sem demonstração alguma de brilho próprio. O que me deixa tentado a cometer suicídio sufocando minha cabeça com as próprias fraldas!

Aprendi a ler aos 7 anos de idade, por culpa de um sistema de ensino que tratava todos como ovelhinhas de algodão coladas em cartolinas e por uma família que estimulava tanto o aprendizado quanto se estimula um lutador de sumô a aderir a macrobiótica.

No entanto, lembro que aos 8 anos de vida eu sabia todas as capitais, moedas e localizações de quase todos os países do mundo – tinha bem menos do que hoje, considerando que a URSS era formada por uma carrada de nações, Tchecoslováquia era uma coisa só e a Iugoslávia ainda não tinha separado as famílias Djokovic de Karlovic. Considerando que o Google de minha época se chamava Almanaque Abril e era lançado anualmente perto do Natal, parecia um feito razoável.

Por mais divertido que fosse para mim, não era coisa que eu pudesse compartilhar com ninguém porque… bem, quem gostava desse tipo de assunto?  Só me restavam os gibis da Disney, Marvel e Turma da Mônica que me caía nas mãos, como solidários amigos da introspecção.

Ah, outra coisa: desde os 7 ou 8 anos meu amigo Victor Folquening e eu já fazíamos gibis em cadernos escolares e tínhamos um elenco de personagens de fazer inveja a Tolkien. Nossas histórias eram sempre absurdas, algo entre Alice no País das Maravilhas e Carl Barks, tudo mal desenhado e sem finais. Nessa idade meu amigo lia muito mais do que eu: por exemplo, leu todos os MEUS livros do Julio Verne, que até hoje não consegui terminar.

Aos 10 anos meus filmes prediletos eram, pela ordem, O Abominável Dr. Anton Phibes, O Encurralado, Scanners, Warriors, Invasores de Corpos, A Bolha e todos os desenhos da Turma da Mônica no cinema. Devo isso a influência de meu irmão mais velho, Ricardo Humberto, que ficava de madrugada assistindo esses filmes. E eu madrugava junto, porque madrugar assistindo filmes de terror era emocionalmente mais confortável do que dormir, para um garoto dessa idade.

Aos 11 anos eu já queria ser chargista e meus ídolos eram Jaguar, Angeli, Laerte, Glauco, Ota e todos aqueles cartunistas da Mad, Pasquim e Chiclete com Banana. Woody Allen e Schulz só fui adorar visceralmente aos 15 anos, um idoso praticamente. Publiquei meu primeiro desenho aos 14 num jornal de bairro, influenciado até a carótida por Dik Browne.

O problema é que nada disso servia para dizer se uma criança era “inteligente” ou não porque na escola – o lugar onde as pessoas eram rotuladas como inteligentes ou burras- só se dava importância a coisas como “arme e efetue”, “separe em sílabas” e “quais os maiores produtores de soja do Brasil”.  Assuntos interessantíssimos para uma alma errante ainda em formação.

No final, creio que, não sei como, continuo sobrevivendo com renitentes manifestações explícitas de estupidez e uma ou outra decisão acertada na vida.

Benett

P.S. – Hoje uma das poucas coisas de que me orgulho é o fato de estar na fase Astronauta do Wordbrain, sem nenhuma dica disponível.

Em tempo: Diana Ross já cantava aos 2 anos de idade, Michael Jackson já era Michael Jackson aos 5 e um bebê que vi no Youtbe já entendia piadas aos 2 meses de vida.

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Benett, Sem categoria

2017… hmmm…

Era para ser um ano ruim. Mas me parece que está se tornando um pouco pior… enquanto isso, tentemos manter a sanidade e o que restou de nosso habitual humor depreciativo – como se depreciar algo já depreciado funcionasse como anestésico para as cargas e tensões emocionais que estão no ar.

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Baummmmmm

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