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Começar tudo de novo

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Vida em Quadrinhos

Por

Alberto Benett e Fabio Silvestre

***

 

Série de humor em que o jovem protagonista de vinte e poucos

anos, sensível mas cínico o suficiente para não ser rotulado

maldosamente de “afetado”, enfrenta bravamente as

adversidades da vida com as melhores armas que possui: seu

humor – capaz de reverter cenários desoladores em algo

próximo ao mentalmente suportável – e suas tiras em

quadrinhos.

Nosso rapaz tem dois amigos, uma dupla de corvos agourentos

de caráter duvidoso, que se apresenta a ele em forma de

bonecos, como na genial criação de Jim Henson. Com esses

dois amigos, o rapaz foge da solidão e compartilha suas

impressões sobre o mundo, suas experiências particulares,

bem como alegrias e frustrações de sua complexa vida

amorosa, familiar e profissional.

LOCUÇÃO EM OFF. UMA NARRAÇÃO DE TIM BURTON

O mundo é tão grande que as vezes a melhor forma de entende-lo é diminuí-lo. Coloca-lo dentro de um quadro, de um quadrinho ou vários quadrinhos. É assim que muita gente vê o mundo. Através de quadros, telas, janelas, buracos, lentes ou mesmo quadrinhos. A vida em quadrinhos parece mais fácil de ser entendida, mais simples, desde que não seja num roteiro do Alan Moore ou do Tarantino. Pra conhecer a humanidade, não precisamos saber o nome dos 7 bilhões, mas talvez de um só, o nosso herói na falta de outro melhor. Vamos conhecer Alan Burguer. Não, ele não é uma lanchonete, apenas um homem comum com um nome gorduroso. Ah, ele é um cartunista.

EXT. CALÇADA DE UM BAIRRO PRÓXIMO AO CENTRO, SEM MUITO MOVIMENTO. UM RAPAZ E UM GAROTO CAMINHAM COM SUAS DEVIDAS PASTAS FORRADAS DE DESENHOS E ILUSÕES DEBAIXO DOS BRAÇOS.

GAROTO

E dá para viver somente de desenho?

ALAN

Claro que dá. Bem, você só precisa abrir mão de algumas coisas supérfluas da vida como… comer, vestir e de vez em quando passar suas roupas.

GAROTO

Puxa, meu sonho é ser desenhista de histórias em quadrinhos.

ALAN

Quer um conselho? Por que você não vai fazer advocacia? É a onda do momento.

GAROTO

Eu ainda tenho dignidade no coração.Não adianta, eu quero publicar quadrinhos nos jornais.

ALAN

Pela sua idade você nem deveria saber que existem jornais. Bem, talvez os jornais acabem antes que você possa dizer “eles só publicam a verdade”. Quer dizer, não é fácil. Essa é uma profissão de bravos, fortes, selvagens… Ser desenhista significa passar noites em claro, ter olheiras, dor nas costas, cansaço extremo, comer comida amanhecida, não ver a luz do dia por meses, viver na solidão, longe de tudo e de todos…

GAROTO

E qual é o lado bom disso?

ALAN

Esse é o lado bom!

GAROTO

Não interessa se eu for passar fome. É o que mais quero!

ALAN

É mesmo? Ok. Então prepare-se porque agora você vai ver um verdadeiro desenhista profissional, experiente e absolutamente respeitado em ação. (eles entram na portaria do jornal)

3.

INT. SALA DE ESPERA DO EDITOR DO JORNAL.

O Garoto está sentado num sofá velho e desconfortável, numa sala de paredes de madeira mofadas, que um dia já foi chique. Ele está aflito com os gritos horripilantes que vêm do interior da sala editor do jornal. Parece que alguém está sendo impiedosamente currado. Ele põe as mãos no ouvindo e começa a fazer sons com a boca para encobrir o barulho do massacre.

INT. SALA DO EDITOR DO JORNAL

O EDITOR está em sua mesa imponente folheando irritado os desenhos do ALAN, que está de costas para nós, praticamente afundado na cadeira. Vez ou outra ele põe as mãos na cabeça, com medo de ser espancado, a cada grito do editor.

EDITOR

Ele está atirando pelos ombros folha por folha os desenhos de ALAN

Ruim…porcaria…péssimo…lixo…deprimente…Você devia assinar esses desenhos como “Parkinson” Ei… hmm… gostei dessa da bola de cristal.

ALAN

Ahn… isto não é uma bola de cristal. É um aquário.

EDITOR

Um aquário?

ALAN

É. É o aquário do Damien Hirst. Por isso o peixe cortado dentro dele.

Vemos um cartum escrito “Casa do Damien Hirst” e o desenho de um peixe cortado dentro de um aquário

EDITOR

Ah… ele é peixeiro?

ALAN

Damien Hirst? Aquele artista que cortava tubarões no meio…

EDITOR

Ah, tá… Garoto, deixe eu te dizer uma coisa: isto aqui não é Discovery Kids. Se eu for até o banheiro e revirar o cesto de lixo, vou encontrar material mais digno de publicação que em toda essa porcaria que você chama de “portfólio”.

ALAN

Mas para entender…

EDITOR

Agora o editor está em pé, com todos os desenhos que sobraram na mão. À sua frente, aquelas caixas de lixo reciclável, onde vemos escrito: vidros – orgânicos – jornalismo ético – outros. Ele joga os desenhos em “outros” Esse é o problema. Faça humor que as pessoas entendam! Que o povão goste. Não adianta piadas com referências, coisas cult que só você e sua turminha de pseudo-intelectuais de cavanhaque vão curtir. Esses geniozinhos de classe-média que pensam que entendem de humor porque são fãs de Sainteld.

ALAN

Seinfeld?

EDITOR

Ele está em pé como que expulsando ALAN do Paraíso

Agora vá para a casa e desenhe algo que seja realmente engraçado. Formigas, desenhe formigas religiosas. Gatos preguiçosos ou crianças que não tomam banho…Nada de heróis ou (afeminadamente) “quadrinhos adultos”. Seja digno dos 20 reais que te pago por desenho!!!

EXT. CALÇADA EM FRENTE AO JORNAL

A cena se desenrola em desenho animado: vemos o rapaz cabisbaixo, com a camiseta do Charlie Brown caminhando arrasado pela rua, com onomatopéias de gargalhadas moldurando sua imagem derrotada. Ao fundo, sons de risos e o coro: “loser, loser, loser”. A cena emula os piores fracassos do dono do Snoopy.

5.

abertura: VIDA EM QUADRINHOS – Episódio: Que puxa, Alan Burguer.

(continua…)

 

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