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Desenhar é morrer

Fábio Zimbres foi a segunda pessoa que ouvi falar esse mês sobre como desenhar era um ato de felicidade aos 6 anos de idade. “Para que transformar em angústia algo que é um prazer?”, disse ele. Engraçado, desenhar, para mim, sempre foi uma fonte constante de angústias e frustrações. Acho que desde os meus 6 anos de idade. Era e é um verdadeiro pesadelo do qual não consigo – e nem pretendo- me livrar.

Desenhar, no meu caso, não é descarregar estresse ou libertar-se de demônios interiores. É o contrário disso, é quando trago para a realidade (prancheta) limitações e percepções de derrota avassaladoras, traumas, frustrações, desespero. Muitas vezes, depois de horas e horas no meu estúdio, saio como se tivesse encontrado um urso marrom em meu caminho e tivesse tomado uma surra memorável. É isso, eu sempre levo uma surra memorável de meus desenhos. A ponto de ficar exaurido física e mentalmente.

Quando o desenho publicado sai uma merda é porque lutei horas e horas contra ele e o estraguei de maneira solene. O que era espontâneo desapareceu dando lugar a um simulacro de originalidade – normalmente algo mal acabado, mal resolvido e com cara de outra coisa, menos um desenho original.

Eu nunca estou desenhando. Como alguns desenhistas obsessivos sempre com bloquinhos e canetas à mão, onde quer que estejam. Eu sempre evito o contato. Prefiro rabiscar as ideias, criar piadas e textos. Desenhar é como morrer. Morre a ideia -como diria Henfil-, morre o prazer, morre a espontaneidade. Morre o autor, sobra o operário da prancheta.

Agora, nessa mesma hora, abandonei a mesa de desenho e vim escrever esse relato cruel de minha incapacidade de finalizar quatro ilustrações relativamente fáceis para um texto sobre humor. Parecia fácil. Era fácil. Mas a neurose deixou tudo complicado e a autocrítica impiedosa demoliu a confiança. Agora é esperar para ver se consigo resolver isso amanhã. Quando a água do prazo começa a bater no pescoço.

TiraALTA-01

 

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